Passagem

O estilo da casa não coincidia com o seu próprio. Estava sentada naquela poltrona antiga, conseguindo sentir através do tecido da calça de montaria uma pequena fenda que havia no sofá, provavelmente advindas da hiperatividade dos sobrinhos, que estavam sempre correndo por aí e destruindo tudo em seu caminho, como aqueles filhotes recém-nascidos de cachorro, destrambelhados e sem direção.
Fazia noites em que não conseguia descansar direito. Sempre escutando histórias pouco razoáveis sobre a insônia e o estresse, mas fingia que não era com ela. Já havia tentado de tudo: chá, suco de maracujá, pílulas, corridas. E de todo modo, já era a quarta noite acordada.
Havia deixado a janela da sala aberta, apenas uma fresta suficiente para arejar o recinto. Naquela noite, a natureza parecia enfurecida. Podia-se ouvir claramente o zumbido da corrente de ar, machucando a cortina bege da janela, aquela cortina que havia ganhado de sua mãe, e pendurado a contragosto. Era insossa, sem charme algum, sem vida. La petit mort da sala de estar. Porém, literalmente.
O barulho do vento não a incomodava, mas a deixava insegura. Como se este pudesse invadir seu espaço, domá-la. Olhava com o canto dos olhos para os movimentos furtivos do tecido, porém, sem tomar decisão alguma. Do outro lado, aquele tique-taque irritante do relógio. Um relógio de corda com os números ao contrário, mas que mostrava a hora certa. Girava ao reverso, assim como a vida dela.
Sentia-se exausta. Fatigada. Dormente. Como se não existisse nenhum propósito. Já o havia procurado, estudado, divagado. Insistia consigo mesma que talvez isso não fosse necessário. Que propósitos seriam uma forma de superstição, assim como clarividência e o destino. Em seu íntimo, considerava tudo uma grande coincidência.
Dezenas de milhares de pequenos fatos alterando a rota da existência. Caminhos encruzilhados por uma parcela de questões. De tal forma eram os relacionamentos, as atitudes. Lances de sorte definiriam e definem a rota do universo. Os rostos que perpassavam, as cenas visualizadas, as situações que se deparava. Nada disso possuía um motivo. Mas mesmo assim, ela tinha fé. Fé, que mesmo com o desconhecimento, poderia haver descobertas fulminantes. Prazer nas pequenas e grandes coisas. Esperança. Vida.
Levantou-se do sofá em um ímpeto, determinada a sair de lá. Queria ficar sozinha, mas em contato com algo maior. Esgueirou-se pelo corredor, alcançou a porta e viu-se livre. Sentiu o vento que incomodava a cortina, chocando-se contra ela, mostrando mais uma vez que se tratava de uma batalha de poder. Não estava agasalhada, contudo, não importava. Precisava sair de lá. Precisava muito.
A rua não estava bem iluminada. Podia ver a sombra das árvores balançando em encontro ao chão. Sentia  incerteza. Continuou andando. No final do quarteirão, havia um parquinho para crianças e alguns equipamentos para exercícios, mais utilizados pelos idosos que moravam no bairro. Pensou em sentar em algum monumento de madeira e encarar a imensidão do céu.
Desde pequena, conheceu milhares de pessoas fascinadas com a lua, mas seus olhos sempre foram obcecados pelas estrelas. Andou devagar até uma escadinha com uma ponte e escorregador, subiu os degraus e atirou-se na madeira turva. Uma grande parte do céu estava escondida atrás de construções de pedra, mas ainda conseguia ver um mar de brilhos, focos de luz. Astros que não existiam há muito tempo, mas ainda assim podiam ser observados. Não soube quanto tempo ficou ali, parada, somente a observar, ouvindo o barulho da noite. Mas finalmente adormeceu.

Na Divisa

Ninguém ensina a você como agir entre as eras. Você sempre ouviu os conceitos de como um bebê deve agir, o que uma criança deve ser, o que se espera de um adolescente, as responsabilidades de um adulto e a tranquilidade da velhice.
Mas não te avisam sobre os meio termos. Quando chegamos na casa dos 20, ficamos meio perdidos. Ou pelo menos eu fico. Você não é um adolescente mais, não tem direito à crises existenciais, não pode ficar sem fazer nada, tem suas próprias obrigações, mas ainda não tem capacitação suficiente para ser tratado como um adulto.
Você é novo demais, velho demais, indefinido demais.
Uma criança vai à escola, um adulto trabalha, e um senhor se aposenta.
Os jovens adultos fazem de tudo: estudam, trabalham, estudam, estudam, estudam, trabalham, e tentam se aposentar nos tempinhos de folga.
Ainda não entendi se fazemos parte da geração Y ou da Z, acaba que esses conceitos são tão amplos e genéricos que desce pela garganta qualquer coisa, mas na minha opinião, é a geração dos perdidos.
Quando a gente pensa que nem todos que vagam estão perdidos, pergunto-me se isso é realmente uma verdade. Se não sabemos direito para onde ir, duvidoso acreditar que a pessoa saiba mesmo o que está fazendo.
Uma coisa é certa: ninguém sabe direito. Ninguém sabe de nada. E com o passar dos danos, só temos razão sobre o que não temos certeza. E isso é muito triste.

Estrategicamente (in)dispostos entre o bem e o mal

Desde que me entendo por gente verifico a compulsão das pessoas em se classificarem e em incluir umas as outras nesse critério imaginário. "Susaninha, filha de Luíza, é endiabrada! Não para um minuto sentada e dá o maior trabalhão!" Pronto. Susaninha, coitada, vai crescer com a reputação de menina levada e desobediente, e essa imagem vai crescendo com ela. Os anos vão se passando e a própria pessoa que foi taxada vai acabar entendendo que lá no fundo, ela é uma pessoa teimosa e desobediente. E claro que isso vai se estender para a fase adulta.
Não para por aí. Decidimos que somos um determinado tipo de pessoa, e nossas escolhas são inteiramente baseadas com o que pensamos de nós mesmos misturado com a imagem que as pessoas têm de nós. "Será que um casaco rosa com capuz me define como pessoa? Se eu usar All Star surrado as pessoas vão me reconhecer como integrante do mesmo grupo social que eu me encontro agora?"
Na minha experiência pessoal, oscilei entre extremos. Antes queria ser a pessoa mais inteligente do mundo - ainda quero - e provar isso para os outros, depois decidi que eu era diferente de todos e por isso minhas escolhas tinham que ser diferentes. Quando a gente se entende por algo "e pronto", a situação se complica. Nossas roupas, corte de cabelo, amigos, ambientes, lugares prediletos, comida favorita, acessórios, visão de mundo, tudo é definido mais do que pelo que acreditamos ser/pensar/sentir do que pelo que realmente gostamos.
Quando nos delimitamos como pessoas - acredite se quiser, mas tem gente que dá um jeito de se rotular até como gente não rotulável  ou como pessoa que não se descreve - acabamos naquela ladainha bem conhecida, sobre ser uma pessoa boa ou uma pessoa má, e concluir onde nos encaixamos.
Quem não liga para essas coisas vive tranquilo, mas quem se importa com a opinião dos outros adentra em um paradigma muito complexo. Essa necessidade de se definir nos leva a loucura, acabamos fazendo coisas que jamais faríamos se ninguém estivesse nos julgando, para finalmente perceber que essa ideia de ser bom ou mau é raríssima... Com alguns poucos exemplos de pessoas que são só boas e pessoas que são só más, acabamos nos esquecendo que na verdade somos apenas humanos. Criaturas incessantes na busca de autoaprovação.
Não tenho mais saco para só escolher o que "combina" comigo. Se eu quero alguma coisa, não me preocupo mais com um motivo sombrio e uma explicação perfeitamente racional. Eu só quero mesmo. Não interessa se as músicas que eu escuto são incompatíveis, ou se meu jeito de pensar não admite. Na minha compulsão por ser uma pessoa ruim, tentei construir uma imagem não afetável de frieza e sarcasmo, e embora eu ache o máximo uma pessoa que é badass por si só, cansa demais ficar fingindo pra você mesmo que você é só "aquilo". Aquele conceitinho que criamos para cada um de nós. Um conceito ínfimo demais para toda a nossa extensão.


P.s.: peço desculpas ao menino que eu destruí o bichinho de farinha, vitima inocente de uma das minhas tentativas de ser muito malvada.
P.s.¹: meus cumprimentos a quem é bizarro no exterior e no exterior também.

Day 01 - Your current relationship, if single discuss how single life is.

"Não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo". Foram precisos centenas de acontecimentos e discussões pra mudar tudo, mas se eu não fosse tão corrompida para acreditar, diria que desde o começo era pra ter sido exatamente desse jeito.
Quando eu pensava sobre isso há alguns anos atrás, toda vez surgia a mesma ideia: de que quando, e se,  acontecesse, ia ser tão forte que não estávamos prontos pra lidar ainda. Agora estamos.

Impassivelmente circular

De vez em quando a gente flutua bem no centro da incerteza. Nada faz total e completo sentido, faltam as soluções imediatas para as perguntas, o passado soa utópico, o futuro pretensioso e pessimista. Quando não se tem nem mais ideia do que deve acontecer, você sente as extremidades do seu corpo formigarem, as entranhas se contorcerem e aquela velha sensação de ansiedade que consome de dentro para fora volta a te dominar. Engolir em seco e debater consigo mesmo o que está acontecendo com você não adianta. É daí que muitas vezes surge a paranoia individual. Você sabe que algo está errado, mas não sabe como resolver e volta para aquela crise de insuficiência crônica e insatisfação que é tão bem conhecida. Todos querem dominar e saber de tudo; porém, no íntimo lateja a insegurança e o sentimento de impotência dentro de sua própria vida. Muitas vezes é preciso ser como um telespectador onisciente: perceber as situações, ler os ambientes, compreender os diálogos, e tentar tirar uma conclusão plausível baseando não só em si mesmo mas no todo, que diversas vezes entrega até mais do que o próprio consciente.
Quando nos sentimos perdidos, busca-se apoio na certeza. E é preciso que ela exista, não importa no que ou em quem. Se ela nos falta, o resto desanda. Sempre temos que acreditar em alguma coisa. É assim que continuamos sãos. É assim que terminamos nossos desafios. É assim que encontramos a nós mesmos.

O Dia Que Júpiter Encontrou Saturno

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.

Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.

Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.

E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou "every day, every way is getting better and better". Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.

(Silêncio)

-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?

(Silêncio)

-Você tomou alguma coisa?
-O quê?
-Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
-Não tomei nada. Não tomo mais nada.
-Nem eu. Já tomei tudo.
-Tudo?
-Cogumelos têm parte com o diabo.
-O ópio aperfeiçoa o real
-Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.

(Silêncio)

-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?
-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.

(Silêncio)

-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Eu sabia também.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.

(Silêncio)

-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.

(Silêncio)

-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.

(Silêncio)

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.

(Silêncio)

-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos?
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.

(Silêncio)

-Me beija.
-Te beijo.

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz.

Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.

Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.

Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-sena janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.

De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.



- Morangos Mofados; Caio

Insatisfação

Sofro de insatisfação crônica. Nada nem ninguém agrada o suficiente, e se o faz é por pouco tempo. Em algumas semanas ou quem sabe dias eu me canso das coisas, não me encantam mais, não atendem as minhas crescentes expectativas e eu sinto vontade de jogar tudo fora e começar de novo. A única coisa que eu tenho decência de fazer é não demonstrar ou contar para as pessoas, já que o que pra mim pode soar inofensivo, facilmente poderia machucar. Na verdade, por eu estar tão insatisfeita - nunca, jamais, confunda com ingratidão -, mesmo que não tenha feito nada, o tal ato por si só me deixa insana. Por que não fez nada se podia ter feito? Só que eu sei que não posso esperar de ninguém o que nem mesmo eu poderia garantir. Eu não faço quase nada que não siga meus próprios interesses, como esperar algo diferente dos que estão ao meu redor? Vivemos numa sociedade que se engole, cada um alimentando seu próprio ego, distúrbios e complexos mal resolvidos, sobrepondo-os, tentando massificar e dominar o ambiente, assim como os que fazem parte dele.
Fico um dia sozinha e já mudei cem por cento de ideia em relação a tudo. Tudo mesmo. O que eu acho de você, o que eu acho de mim, o que eu deveria fazer, e o que eu deveria fazer em relação a você. Mesmo que não tenha havido nada além de silêncio. Por minha parte ou pela sua.
Pra falar a verdade as relações humanas me apavoram. Elas são excruciantes em demasia, inflam nossas ansiedades e nos fazem querer mais do que podemos exigir, e a hipocrisia acaba consumindo tudo e deixando só as cinzas no final.
Quem vai querer uma dessas? Quem vai querer passar por isso? Pra que tanto tormento, tanta irresolução? Os problemas começam a se misturar e você não consegue distinguir as cores, as tonalidades se confundem e só resta o sentimento de caos. E ele move o mundo. Aproveita-se do drama e cresce, explode, espalha-se.
Eu sou a favor do caos.
Desde que eu o instaure...

30 day challenge

Eternidade Compulsiva

Sempre considerei as pessoas, em sua grande maioria, substituíveis. Isso normalmente desperta asco.Todos genuinamente entretidos com suas ideias duradouras e seus "para sempre".  Não consigo pensar em absolutamente nada que seja para sempre. Nada mesmo. A questão é que tudo isso é expectativa de comportamento social. Achamos que nossos relacionamentos com as pessoas vão durar a vida inteira, que a família estará sempre ao nosso lado pra dar apoio, que o que você tem com sua "amiiiiga" é mais forte que a estrutura de um prédio. Mas quem falou? Como é que você sabe? Não sei de onde surgiu essa ideia de que tudo é único e maravilhoso.
Recusam-se a perceber que com a passagem dos anos, não só o cenário muda, mas os personagens também. Uma a cada quatrocentas pessoas vai continuar com você com o decorrer do tempo. E isso é algo positivo. Fica quem tem que ficar, quem quer e quem pode.
Por mais horrível que isso soe, já morei em oito cidades e mal sinto falta das pessoas que conheci. Não porque elas significaram pouco pra mim, muito pelo contrário, foram essenciais na minha vida, no momento em que fizeram parte dela. Mas passou. A vida muda, as estações do ano trocam, e as coisas vão perdendo sua importância. Pra ser sincera, tenho mais saudade de gente que jogou RPG comigo por dois anos do que de quem passava o recreio comigo na quarta série.
Justamente por pensar assim, não me incomodo de retirar pessoas da minha vida por não se ajustarem mais ao contexto. Falando desse jeito, parece que sou uma maníaca manipuladora robótica que não se importa com nada nem com ninguém. Eu até gostaria de confirmar isso por ser simplesmente mais fácil, quem tem medo de ser trocado ou do jeito que eu analiso as pessoas, pode sair do meu caminho. Quem esteve comigo (e que ainda está) é diferente dos outros. Marcam com traços fundos onde quer que passem. E é por isso que são meus amigos. Porque amigo não é coleguinha de primeiro ano que tomou umas pingas com você. Amigo não é gente que você conheceu em uma viagem ano passado e viu duas vezes desde então. Não é o cara que te passou cola no Ensino Médio. Amigo é amigo. E me poupem. Vocês não me amam pra sempre, nem se amam pra sempre. Tenham dó de vocês mesmos.

Um salve para as minhas exceções que me fazem acreditar que ainda é possível se relacionar e sentir plenitude e reciprocidade.

A incapacidade de se importar

Cobrança é o que mais se vê por aqui. As pessoas estabelecem um padrão de comportamento e exigem que você cumpra o que elas acham correto. Sendo assim, julgam-se no direito de requisitar o que não está em sua alçada. Nunca foi tão frequente a demanda por atenção, carinho, amor, e por aí vai. Com essa história toda, fico pensando: qual foi o momento, o momento mais errado de todos, em que uma pessoa sentiu e decidiu que poderia controlar as ações de outras? Desde quando expectativa de comportamento social virou motivo pra discussão?  Quem estabeleceu que não atingir ao esperado do próximo dá direito de infortunar a vida alheia e virar motivo pra tragédia?
Por mais hipócrita que eu seja, sei que não posso obrigar ninguém a fazer nada, muito menos a fazer o que eu não gostaria ou não faria se fosse eu. Chegamos em um ponto que o sistema está tão massacrante que dá preguiça só de pensar em sair de casa, e encontrar aquelas mesmas pessoas detestáveis do seu cotidiano. Não acho que estou errada em preferir evitar esse tipo de gente e ambiente. O maior direito (e eu sei que é chato falar isso, mas vou falar: GARANTIDO CONSTITUCIONALMENTE) é o da liberdade e o do livre-arbítrio. Se nem minha mãe me obriga a fazer o que eu não quero, o que faz outra pessoa pensar (que nem é minha mãe) que pode regular, controlar e decidir o que eu supostamente preciso fazer?
O simples fato de discordar e querer manter seu ponto de vista (e agir a partir dele) virou desculpa para ser rotulado como uma pessoa que não se importa com nada nem ninguém. Se não querer fazer o que os outros exigem de mim é ser egoísta e narcisista, que assim seja. Os limites estão sendo extrapolados, a sociedade massificada e caindo num conceito esdrúxulo. Minhas sinceras desculpas, mas me recuso a fazer parte disso. Let the flames begin.

Você

Senti saudades de você. Rápida, passageira, mas ainda assim saudade. Li algumas cartas, alguns poemas, uns causos meio bobos, você costumava rir de mim quando eu ligava demais pras coisas. Jogava uma cantada idiota que eu achava só um pouco de graça, e perguntava o que eu tinha feito errado no dia, se algum coleguinha tinha faltado com o respeito comigo ou se eu estava caindo na tentação. Eu pensava em umas coisas estranhas; como o formato do seu queixo, a maneira que o seu cabelo caía sobre os olhos e você tinha que sacudir igual um cachorro pra poder enxergar, o jeito que você devia falar as coisas, e o que você ia fazer quando parássemos de conversar.
Tinha algo diferente, a maneira que você interpretava e explicitava fatos, seu posicionamento e a demonstração da sua opinião. Eu me atraio por coisas diferentes que as pessoas normais, eu valorizo a cabeça mais do que quase qualquer outro aspecto, e você tinha "a" mente, e pior: me entendia. Quantas pessoas eu conheço que me compreendem? Construí sobre você a imagem do ideal, as características que eu devia procurar em todo mundo pra começo de conversa.
E o tempo foi passando, sem nunca ficarmos parados na rotina. Você me surpreendendo, eu achando bom, e nós dois levamos as coisas. Contanto, sou tão instável... Eu mudo tanto de ideia, de conceito, de decisão, e você mesmo lidando com isso, ficou pra trás. No final das contas, eu deixo todo mundo pra trás, e fico sozinha. Eu não consigo conviver com ninguém, nem com você. Não fui feita pra isso, você sabe. Você me conhece(cia?).
E agora, depois desses anos, eu descobri que você não existe. E além de não existir, foi a minha materialização da pessoa humana, e meu melhor amigo até então. Eu já era velha quando te inventei, e mesmo que não doa, ainda arde. Sabe ardência? Então. Eu sinto arder. Eu sinto coçar no fundo das minhas confusões, como aquela coisa que pulsa no fundo da gaveta, e quando procuramos alguma coisa perdida, achamos ela. A gente nunca supera essas coisas completamente. Mas sabe qual é o problema? Você sou eu. E isso me mata.

É, eu gosto muito de ti.

"Olha, fique em silêncio. Eu gosto do teu silêncio. Mas também gosto de tuas palavras - acredite. Mas não vim aqui para te falar de ruídos - ou não - , estou aqui para te falar de céu, mar, estrelas e tapioca - como naquele dia, lembra? Ontem, por incrível que pareça, todos os lugares que pisei eu te procurei. Teus rastros ficaram por lá. O balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti."

Vocação

Desde as minhas primeiras semanas estudando Direito, ficou claro que muitos juristas não têm vergonha nenhuma de falar que cursaram pelo dinheiro, que não querem mudar o mundo, só garantir o salário no final do mês. Quando eu estava decidindo qual carreira eu ia seguir, fiquei em dúvida (por pouquíssimo tempo) entre Jornalismo e Direito. Se eu fosse cursar Jornalismo era pra tentar seguir algo mais abstrato, poder viver de uma coisa que eu realmente aprecio e levo como hobby. Depois de procurar saber, eu percebi que o mercado de trabalho pra esse curso é complicado demais, e agora já nem é mais preciso diploma pra exercer.
Enquanto desistia de Jornalismo, escolhi o Direito. Quase ninguém quer saber porquê, já que quem não sabe o que quer da vida muitas vezes faz esse curso. Eu não escolhi por acaso. Não tirei no tarô o que eu ia seguir pelo resto da vida, e eu me sinto um pouco ofendida de ver que professores desistem de aptidão e de vontade de exercer alguma profissão em específico só pelo campo mais amplo de trabalho que eu conheço.
Agora, no começo do segundo período, as razões me saltam aos olhos. Para querer ser jurista, você precisa estar insatisfeito. Muito insatisfeito. Com as pessoas, com as leis, com as vontades, com a passividade, com a coerção do Estado, com a indiferença, consigo mesmo. Longe de mim querer mudar o mundo, não quero, e não deixo de querer. Sei que não está sob a minha alçada, meu objetivo nunca foi esse. Mas tem uma coisa que eu quero fazer, e eu sei que a oportunidade está paradinha na minha mão: eu quero corrigir o que há de errado. Eu quero ver os erros, realçá-los, passar marca-texto, gritá-los, apontar o dedo na cara dos outros e consertar tudo. Eu quero que todos vejam o que precisa ser mudado. Eu quero sentir que eu fiz a diferença na minha própria vida, preciso ver que ainda tem gente procurando fazer o que está certo. Eu me alimento do que é certo e do que é errado, eu vivo pra isso.
Então se um dia você finalmente vier me perguntar porque diabos eu escolhi Direito, e não Letras, Arquitetura, Psicologia, Publicidade ou Engenharia Mecatrônica, saiba que é porque eu tenho a vocação. Eu tenho o poder de transformar as coisas, e o farei.


Mas lembre-se: muitas vezes os fins justificam os meios.
And tonight, we dine in hell.

Catarse

Depois de séculos de lenga-lenga para descobrir qual a finalidade do homem e sua "missão de vida", ou como queira chamar, a que eu mais concordo é a busca pela felicidade. Tudo na vida rege esse simples fato, o resto é consequência. Porém, sendo inconcreta como só ela, ficamos navegando por aí sem saber direito o que fazer. Cada um tem uma forma de procurar. Alguns pensam que ela está disponível nos relacionamentos mundanos, outros na arte, outros no poder, nos livros, na fé. Não importa. Cada qual tem o seu próprio meio.
Sendo assim, senti vontade de descrever um dia perfeito! Um dia que exalasse felicidade.
Pra começar bem, eu teria que ter dormido bem. E em vez de acordar cinco da tarde, o ideal seria naturalmente despertar lá pras dez da manhã. O ponto perfeito entre não perder a manhã e não perder a noite de sono. Levantar sem sol batendo no rosto, sem barulhos, só quietude. Sair do quarto e ver meu irmão dormindo de cara boa, entretido nos próprios sonhos; mas minha mãe e meu pai acordados. Minha mãe vendo TV na cama e me alertando que meu pai foi na padaria, e por algum milagre, comprou meu biscoito favorito. Meu pai mexendo no twitter dele com disposição, enquanto o seriado histórico está pausado bem em frente ao sofá. Volto pro meu quarto depois de comer, deito na cama com preguiça, e fico pensando em como terminarei de manejar o dia. Pego o meu celular, tem duas mensagens, uma sobre o que vou fazer hoje, outra sobre ontem, uma risada, uma frase solta e engraçada, alguma coisa que me deixe com um tipo de excitamento diferente, aquele de ter vivido algo legal. Respondo a mensagem, ligo o computador, mexo um pouco, espero até o almoço. Almoço, tomo banho, vou encontrar com os meninos, ficamos com preguiça de todas as coisas do mundo, assistimos um filme, rimos da cara uns dos outros, sentamos em algum lugar e conversamos por longas horas, que parecem passar de um modo inconveniente. Chega a um momento de fim de tarde onde cada um precise ir pro seu lado, e me dá uma agonia, uma vontade de continuar lá e não deixar ninguém ir embora pra onde quer que fosse.
Chegar em casa, conversar um pouco com a minha mãe, ouvir meu pai fazendo alguma piadinha que ele mesmo inventou, encher o saco do meu irmão, ser jogada na cama e tentar fugir, simular uma briga - que provavelmente vai deixar algum hematoma no meu braço - e ir pro banho. Arrumar e terminar ao mesmo tempo que as meninas - o que até hoje não aconteceu, se não me engano -, não ter que inventar nenhuma história, encontrar com elas e sair. Ter uma noite foda, não usar o telefone para fins indevidos, fazer boas escolhas. Voltar pra casa, a porta dos meus pais fechada, a luz do quarto do meu irmão apagada, sem sustos. Ligar o computador e desistir de usar ele antes mesmo de dar tempo, guardar as coisas direitinho, tirar a lente e pular na cama. Olhar o celular, e ver que recebi uma mensagem de tardinha, algum comentário genial e sórdido que só meus amigos podem produzir. E ir dormir, feliz. Leve.

É o meu sábado, meu dia ideal.

Efusivos

Voz grossa, concentração em agradar a vontade do maior número de pessoas ao mesmo tempo, cento e cinquenta camisas do time no armário, bermudão florido e cabeça vazia, inexplicável vontade de falar mais alto que os outros e por um tempo maior, audição automaticamente programada para detectar a primeira brecha de silêncio pra voltar a reclamar ou se gabar de alguma coisa, competição pra ver quem pega mais mulher em um menor período de tempo, bebedeira só pra postar em alguma rede social falando em como a noite ontem foi "insana", falta de noção e limites, vômito e maconha, desprezo pelas regras e pelo bom senso, lê dois livros por ano - obrigado pela escola, faculdade, vestibular -, escuta Nirvana e Red Hot pra entrosar, mas curte de verdade um samba de raiz, um pagodinho e um sertanejo apaixonado, cola nas provas de inglês e espanhol, mal sabe falar português, mas acha que isso não importa por causa do intercâmbio que ainda não consertou seus graves problemas de gramática, não queria fazer nenhum curso na faculdade, mas papai disse que não ia deixar um vexame desses acontecer na própria casa, tem um carro que só conseguiria comprar sozinho daqui uns 15 anos, mas já bateu ele quatro vezes. O plano de vida é seguir a carreira do pai e depois ficar com a herança, responde mal-educadamente ao vizinho, bate a porta de casa na hora de sair, fala com a empregada como se ela fosse um saco de lixo, larga a cueca no chão do banheiro,  implica com a opinião dos outros sem nem saber sobre o que está falando, entra no meio das conversas apenas pra intrometer, xinga os outros a troco de nada e acha super legal saber que o parceiro entrou numa briga ontem por causa de alguma "vagabunda". Escreve tudo abreviado e acha retardado quem faz questão de por acento e vírgula, tem um milhão novecentos e trinta e quatro melhores amigos/irmãos, mas não sabe o aniversário nem o nome da mãe de nenhum deles, passa mais tempo no clube e batendo racha do que pensando em qualquer coisa, sente profundo irritamento quando o silêncio dura mais que um minuto e o preenche com alguma frase ridícula que demorou uma semana pra pensar, namora uma menina que nem gosta muito, mas prefere ter alguém pra passar o cartão sempre que quiser. Um não está nem aí pro outro e ela dá pra todo mundo, mas a fama dele também não perdoa. Detesta a mãe e não vê a hora de nunca mais ver a cara dela, adora loira de silicone e mentalidade de criança, a cabeça com falta de conteúdo semelhante da própria. Boné na hora do almoço, arrota em reunião de família e acha engraçado, é grosso com o sobrinho e com o namorado da prima, tatuou uma caveira bem punk com umas chamas no braço e pensa em fechar a panturrilha. Seu gênero de filme favorito é ação e filmes de super-herói, mas não dispensa uma comédia com besteirol estilo American Pie e acha Jackass genial. Tem um brinquinho na orelha esquerda e morre de tanto malhar, as vezes toma alguns suplementos, "mas nada demais". Tá no curso errado, no bairro errado, na cidade errada e SEMPRE no local mais inapropriado possível. Não consegue tirar o nariz de qualquer discussão que apitar no seu radar de 150m, acha engraçadão a maioria dos quadros da MTV e adora criticar e elogiar os famosinhos da internet, dependendo do humor. Queria tocar guitarra, trocou pro baixo e acabou largando isso pra lá, fala que não tem medo de nada, mas se borra só de pensar na possibilidade de ter que trabalhar e fazer alguma algo séria na vida, morre de preguiça de fazer qualquer coisa, prova ser imprestável com a maior facilidade do mundo.

Só um conselho: morre que melhora.

Insensibilidade

Ninguém jamais está satisfeito com nada. Se não reclamam da falta, reclamam do excesso. Vivemos em uma sociedade extremamente descontente com qualquer coisa, demandando todo o tempo mais informação, mais conteúdo, mais confusão.
Tenho a impressão que as pessoas literalmente param o que quer que seja pra procurar material e criticar. As piadas já estão na ponta da língua, ensaiadas em frente ao espelho, procurando pela menor das oportunidades.
Mas existem aqueles mais nervosinhos. Os que não precisam se preocupar em entrosar ou saber as piadinhas que todo mundo sabe, porque simplesmente não faz diferença. Eles não se importam. Simplesmente flui.
Como não podia deixar de ser, os eternos insatisfeitos não conseguem lidar com quem está pouco se fodendo pras banalidades, para os problemas fúteis e supérfluos que nos são impostos a todo momento. E em vez de serem entendidos como pessoas que tentam não supervalorizar besteiras, a única imagem que conseguem é o de insensíveis, grossos, arrogantes, sem educação, sem coração, e a lista não tem fim. O problema é que todos exigem  - com uma sede insaciável - uma quantia exagerada de carinho e atenção, sem retribuir e pior ainda, sem merecer. Quem ordena ou cobra uma coisa dessas não tem direito de pedir nada pra ninguém!
Gente ordinária supre as necessidades de gente ordinária. EU preciso de mais do que isso. Prefiro conhecer e gostar de uma pessoa só no mundo inteiro do que ser igual as pessoas fúteis que eu vejo em cada esquina.
Valha o que você requisita.

Paciência é uma virtude

Eu sou uma pessoa insanamente ansiosa. Olho pro relógio a cada 3 minutos, de vez em quando até estabeleço um padrão enquanto verifico que horas são, só pra você ter certeza do quanto me incomoda ter que esperar. E quando você é tão ansiosa assim, não há controle o suficiente pra tomar a medida perfeita, porque perfeição leva tempo, e é impossível esperar.
Essa ansiedade traz resultados imediatos: nervosismo ao aguardar pelo que quer que seja, taquicardia, pernas que se movem sozinhas, respostas efusivas e desatentas - ou meio grosseiras - e muita dor de cabeça.
Quando você não tem paciência, é bem mais fácil ficar irritado com coisas que provavelmente não afetariam mais ninguém, como o tempo que seu irmão demora pra sair do chuveiro, os quinze minutos de atraso do motorista, os quarenta minutos na fila do banco, o taxista dando voltas descaradas com bandeirinha 3, gente folgada, a velhinha que decide pagar a conta da padaria com moedas de dez centavos - e perde a conta duas vezes -, a aplicadora de prova que decide não aparecer até o horário estar quase no fim, o tempo que seu namorado gasta pra responder sua mensagem, ou sua amiga pra confirmar se vai ou não almoçar com você, seu pai enrolando pra te dar dinheiro, fazendo hora com a sua cara, ou a demora que sua mãe arruma para chegar no segundo portão do prédio. "Ah, mas se fosse eu". Mas bem, não é. E uma das coisas mais incontroláveis de todas é o tempo, temos que lidar com ele e não há nada a se fazer.
E impaciente como poucos, não me resta tolerância para comentários inoportunos. É praticamente imediato. É aí que mora o erro e o perigo. Por isso eu afirmo: a vida é mais fácil para os que conseguem esperar. E se você é tranquilo e não liga pra nada, por favor, passe-me a receita do bolo. Porque eu cheguei no meu limite.