é só você.

O barulho distante do chaveiro na porta da frente te acorda. Você foi dormir tarde ontem, preocupado com coisas levianas. Então você amaldiçoa baixo. Gira, tenta se acomodar na cama; envolve o edredom com as pernas e tenta pegar no sono novamente. Você consegue. Passam-se cerca de dez minutos, mas o celular apita. Você afunda o rosto no travesseiro, desejando que o aparelho exploda. Ele insiste. Você tateia pelo chão, e enfim o encontra. Seus olhos se recusam a abrir. Você os pressiona. Uma tentativa, duas. As pálpebras caem. Você precisa conseguir. Ele continua tocando. Você faz outra tentativa. Seus olhos estão semi-cerrados. Nova mensagem. Você aperta o maior botão que encontra vagamente, e enfim consegue fixar sua atenção na tela brilhante. É a operadora. Você xinga alto. Eles não tem noção de horário? Seus olhos - agora um pouco mais abertos - procuram por um relógio, mas você não tem forças suficientes para se levantar. As pálpebras pesam novamente. Você dorme outra vez. Acorda, menino... E o quarto, de repente, está inundado de luz. Desta vez seus olhos se abrem. Uma figura morena invade seu campo visual, e você se sente irritado outra vez. Preciso dormir... Você retruca. Ela pigarreia. Você ignora. Ah, Marcelo... Ela parece indignada, mas você não escuta. Seus olhos se fecham novamente. Aconteceu uma coisa, Marcelo... Sua cabeça afunda com força embaixo do travesseiro. Foi Laura, menino.. O nome percorre por sua cabeça. Você não consegue se lembrar de nenhuma Laura. Sua amiga, menino... Instantaneamente, seus olhos se abrem. Uma energia que parecia inexistente começa a se apoderar do seu corpo, você se sente atento. O que houve com Laura? Você pergunta. A imagem da garota se forma na sua mente, enquanto você se esquiva do travesseiro e se senta. A menina caiu... A voz da mulher se embargava. Fale direito, Camila. Você ordena, a preocupação começa a fluir. Não sente mais sono. Não foi culpa de ninguém... Ela escorregou, tropeçou na escada... Escadas... Escadas... Laura caiu da escada. Sempre tão desastrada... Seus pés o guiam pra fora da cama. Você sente calor, você sente raiva outra vez. Cadê a Laura? Você pergunta racionalmente. A mulher hesita. Camila... Você pressiona, ela suspira. Você se levanta. Olhe, Marcelo... A menina está no hospital... Seus pés escolhem seu rumo novamente. Você se encontra na cozinha. Vê sua mãe, os olhos aflitos dela correm de você para a empregada, que te seguiu. Você fica em silêncio, encarando-a por alguns instantes. Sua mãe soluça. Você percebe que ela está chorando. Você continua em silêncio. Você retorna para o seu quarto, calça um chinelo, coloca uma calça e apanha o telefone celular. Então você sai do apartamento. O elevador demora, você escolhe descer de escada. De dois em dois degraus. Você entra no carro. Respira profundamente e gira as chaves na ignição. Posiciona as marchas e acelera, arrancando o carro da garagem. Está chovendo. Você não está entendendo direito o que está acontecendo. Você não liga o rádio. O telefone toca. Você não percebe. Ele começa a vibrar. Você o pega, atende, segurando o aparelho entre sua orelha e seu ombro. Começa a comer faixa. Marcelo... Marcelo, volta pra casa... Você reconhece a voz da sua mãe. Por que, mãe? Você continua sem entender. Você não lida bem com enfermos, meu filho... Você rola os olhos. Laura vai querer me ver. Você argumenta. Sua mãe suspira. Vá com calma, Marcelo... Uma veia de sua testa começa a latejar. Mãe, que diabos 'tá acontecendo? Você desconfia. Não é nada, meu filho, não é nada... Volte pra casa. Você sente a irritação fluindo outra vez. Eu já não disse que vou ver Laura? Sua mãe não fala nada. Você desliga o aparelho. Você continua dirigindo. O prédio branco é familiar, você estaciona. Seus olhos percorrem todo o local. Todas as pessoas parecem deprimidas. Você dá de ombros e segue para o balcão. Quero visitar Laura Rodrigues. Você informa calmamente. A moça diz que os enfermos se encontram no segundo corredor à direita. Você segue o caminho que ela indicou, e acaba chegando num lugar quadrado, cheio de cadeiras enfileiradas. A atmosfera está tensa. Você percebe. Pigarreia alto, e uma enfermeira lhe encara. Posso ajudar? Você repete o que disse à recepcionista. A mulher hesita. Você repete o nome de sua amiga, agora a imagem dela pulsa na sua mente. Você se lembra dos traços, do perfume, da cor dos olhos, do cabelo... A Sra. Laura não está em condições de receber visitas, senhor. Ela explica. Seus olhos encaram a mulher com uma pitada de desprezo. Quero ver minha amiga. Você repete. Ela confirma com a cabeça, seus olhos suplicantes. Ela anda em direção a uma mulher morena de costas, os cabelos crespos estavam sujos, e ela aparentava não dormir. Você a segue. Reconhece a morena. Os olhos dela estavam inchados. Era a mãe de Laura. A enfermeira se afasta. Dona Clara? Você pergunta, indeciso. Ela começa a chorar e te abraça. Você continua sem entender. Um senhor pousa a mão em seu ombro. As coisas começam a se ligar. A mulher soluça no seu pescoço. Você começa a se sentir nervoso. Uma tremedeira se apodera de você. Tudo adquire sentido. Onde está a Laura? Você indaga. A mulher começa a chorar mais alto. Cadê a Laura? Você se nega. O senhor te afasta da mulher. Você também o reconhece. Era Rafael, o pai de Laura. Os olhos dele estavam marejados. Ele limpa a garganta. O que está acontecendo? Você pergunta entrando em choque. Você anda até a enfermeira. Ela morreu? Ninguém vai me dizer onde está a Laura? A enfermeira parecia ter se recomposto. Meu senhor, tudo o que estava em nosso alcance... Você começa a acreditar. Se sente tonto. A Laura morreu? Sua voz estava falha. A mulher balança a cabeça e coloca a mão firmemente sobre seu ombro. Você se desvencilha e anda em direção a um outro cômodo, o mais próximo. Uma porta. Você estende a mão para a maçaneta, mas uma pessoa te impede. Você gira seus calcanhares e encara a roupa toda branca. Continua olhando e encontra o rosto. Então encontra seu pai. Um senhor sério, bem-vivido, muito forte. Olha, filho.. Você desvia seus olhos. Ela teve uma hemorragia.. Você não estava mais escutando. Cadê a Laura? Você pergunta pelo que te parece a milésima vez. Seu pai balança a cabeça negativamente. Não dá agora, filho. Mas você tem que entender, ela não aguentou... Você parade ouvir novamente. Não consegue raciocinar direito. Suas lembranças são ativadas. Você sente seus olhos arderem, e as mãos não conseguem ficar firmes. Ela morreu? Dizer o nome novamente parecia doer. Você segue seu instinto. Seu pai confirma com a cabeça. Seus olhos ardem mais. Você entende que está chorando. Você não chora desde que era uma criança. Suas mãos vasculham seu rosto, empurrando as lágrimas atrevidas. Você procura por um sentido pra aquilo tudo. Uma razão. Elas parecem distantes. Você não as encontra. Você não sabe o que dizer, o que sentir. Machuca. Você pensa na vida dos pais dela. Você pensa em como a vida dela foi curta. Você se sente mal por você mesmo. Você relembra as vezes que não deu atenção pra sua mãe. Você se lembra de quando tratou mal o seu pai, quando brigou com Laura. Você relembra de todas as oportunidades perdidas, de todas as manhãs desperdiçadas, de cada coisa que você adiou. De repente, você se sente fraco. Você encara as coisas de outro jeito. As lágrimas rolam novamente. Você apanha o telefone e disca alguns números sem olhar. Alô? Mãe? Eu amo você.

4 comentários:

  1. é um post beeeem grande! :o
    e eu não li ._.
    mas, eu ainda gosto de você \o/
    (não, não tem nada a ver uma coisa com a outra oO)
    e eu sinto muita saudades suas!!
    beeijo :**
    outro dia eu volto aqui, e se tiver um post menor eu posso até ler \o/

    (L)

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  2. meio triste, mas bem escrito.

    um beijo.

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  3. outro dia eu volto aqui, e se tiver um post menor eu posso até ler \o/ [2]

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Entretidos.