Fim da linha

O telefone toca no meio da noite, e ele levanta, sonolento, tateando pelo aparelho no escuro. Não tem o mínimo interesse no que vai escutar, mas a possibilidade da insistência do barulho não lhe parece nem minimamente agradável. Coloca o telefone na orelha e responde com a voz marejada de sono:
- Pronto.
Ouve-se uma longa fungada, que faz com que ele afaste o aparelho da orelha por mínimos centímetros inconscientemente. Uma voz rouca, funda e arrastada responde após duas inspiradas:
- Você tem três dias.
- Três dias pra quê?
Mas a ligação é encerrada. Sem muita consciência, volta a deitar na cama, reflete sobre isso por alguns segundos e acaba caindo no sono. Tem sonhos conturbados a noite inteira, acorda ensopado de suor, mas não consegue lembrar claramente do que aconteceu. O dia segue seu curso normalmente, mas resquícios de preocupação o acompanham e aquela sensação de que algo não vai bem. Quando chega do trabalho, senta no sofá e tranca a porta da sala, com a intenção de lembrar do sonho a todo custo. Dez, quinze, quarenta minutos e nada. Desiste e vai tomar um banho. Quando sai, a mulher já chegou, está deitada na cama assistindo televisão. Esquece-se do desconforto. Às 3 da manhã o telefone toca de novo.
- Você tem dois dias.
A respiração fica ofegante, e ele questiona com toda a força que consegue juntar no meio do embargamento de sono:
- QUEM É? DOIS DIAS PRA QUÊ?
Como o esperado, o telefone torna a desligar. Então ele se lembra da noite anterior e fica preocupado. Pensa em acordar a esposa, mas não tem coragem. Decide ligar para a operadora do telefone e conseguir o número e alguma informação sobre a ligação recebida. Passam das cinco, e depois de interruptas tentativas e músicas de fundo, ele desiste novamente. Pensa em ligar pra alguém, mas decide esperar um horário mais apropriado, afinal de contas, devia ser apenas a brincadeira de algum de seus desocupados amigos. Apanha um caderninho e rabisca alguns nomes na esperança de se recordar de algo que tinha feito que merecia uma brincadeira de volta. Lembranças vagas. Decide por três colegas de trabalho. Toma outro banho e espera a hora do serviço começar. Assim que chega na firma, indaga aos colegas mais engraçadinhos sobre a suposta brincadeira, todos negam e parecem incrivelmente sinceros. Vinte minutos depois, um rapaz magro e acanhado o aborda, com suas profundas olheiras que saltam aos olhos dos passantes, e confessa ter recebido ligações estranhas e que sua preocupação vinha lhe tirando o sono. Disse estar no terceiro dia. Com um ar despreocupado, esse diz para que não se preocupar, que tudo devia ser uma piada inconveniente e de muito mal-gosto, mas no fundo, tinha ficado inquieto. Foi para seu escritório e tentou contato com um antigo amigo policial, que prometeu trazer novas informações.
Não conseguiu afastar os pensamentos e apresentou baixo rendimento, o que não era de seu feitio. Atravessou o dia se arrastando, mas decidiu ignorar as pontadas de pensamento. Mais tarde foi pra casa, e assistiu televisão ao lado do telefone aguardando pela ligação que esperava ser a final. Garantiu a mulher que queria assistir um jogo de hockey daquele time que adorava e que o disco para gravações da TV Digital estava cheio, portanto ficaria acordado. Tranquila, ela despediu e foi dormir. Dessa vez o telefone não tocou. Esperou, esperou, e nada. Ficou nervoso, achou um desaforo a brincadeira não se completar. E é assim que as coisas são, não é mesmo? Não importa quão estúpida seja a coisa, queremos que ela vá até o final. Dediciu esperar até as seis, inutilmente.
Passaram-se 48h sem que ele dormisse, acabou cochilando no escritório. O chefe reclamou, ele pediu desculpa, afirmou estar com uns problemas em casa, mas assegurou que os resolveria antes mesmo que isso começasse a realmente afetar seu emprego. Convenceu o patrão e ele o deixou em paz. Tamborilava na mesa o tempo todo, o ouvido atento às ligações dos colegas e do próprio telefone.
Nada aconteceu. A aflição foi totalmente desnecessária. Mas ele sabia que alguma coisa tinha mudado, alguma coisa estava diferente, alguma coisa estava fora do lugar. E ele nunca saberia o que era.

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