Ele & Ela

Ela é fria demais, seca demais, nervosa demais. Implica com tudo que ele fala, não aceita escutar nem uma coisinha sem contestar. Discute com todo mundo por causa de tudo, não considera a opinião dos outros, fala sem ter certeza, mas no final das contas está sempre certa. E se não estiver, vai continuar achando que é assim.
Ele não liga pra nada, tem uma resposta pronta pra tudo, acha que pode fazer qualquer um mudar de ideia sobre qualquer coisa. Não tem nenhum medo de dizer não, especialmente pra ela, e acha que cara feia "é fome ou falta de homem". Debocha das incertezas alheias, dá opinião sobre qualquer assunto e tem uma teoria muito consistente sobre qualquer banalidade.
Ela detesta as pessoas as pessoas de modo geral, ele acha que elas são estupidamente fascinantes. Ela acha que os mistérios da vida serão resolvidos um dia, ele tem certeza que são insolucionáveis. Ela vê inconsistência em todas as pessoas, procura pelo começo dos erros e não consegue deixar de criticar, mesmo que em silêncio. Ele acredita nas pessoas. Crê que ainda existem mais pessoas boas que ruins, que as coisas se acertam com o tempo, que as coisas mudam se tiverem que mudar.
Ele sabe que as coisas são mais complicadas do que parecem, que nem todo mundo merece atenção e comprometimento, que a melhor saída pras dúvidas vêm de um questionamento racional. Ela sabe que o homem sofre influência das inclinações, que não existe sub-consciente, que não somos animais com instinto, que nossas escolhas são delimitadas por nós mesmos, que o caráter quase não é passível de mudança, que nós somos formadores do nosso destino. Ele acha que ela se preocupa demais com o que não devia, que ninguém merece tanta importância, que as coisas são ajustáveis.
Ela vê tonalidades, ele vê o espectro de cores. Ele acredita no amor, na beleza simples das coisas, nas inúmeras possibilidades da vida. Ela acredita nela mesma, na busca incessante pela felicidade, e na abdicação de direitos pelo bem-estar comum. Ela acha que algumas pessoas são melhores que outras, ele acha que isso é uma questão de opinião.
Ela é convicta em verdades absolutas, ele tem certeza que qualquer coisa é indagável.
Eles não acreditam em forças superiores, em mitos, estrelas, assombração, espíritos, ressurreição. Só no orgulho, na consistência das coisas, nas memórias, nas mudanças que nós provocamos, na verdade implícita, e na falta de algo maior do que suas próprias inteligências.
Separados, talvez ela seja uma tola aspiração à racionalidade, e ele alguém com mania de grandeza, que acredita demais nas coisas. Mas juntos, não sei, tem alguma coisa ali...

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