Mulher

"Ah, mas não tem como. Não vou levar bolsa!" - Ãhn? Como assim não vai levar bolsa? E suas coisas, menina? - Chave, celular, dinheiro, carteira de identidade... Vai sair de mãos vazias? Espero alguns segundos e ela me mostra tudo antes que eu chegasse a perguntar. Coloca a carteira dentro do decote do vestido, junto com o dinheiro todo amassado ou o cartão de crédito - parece que está na moda levar cartão de crédito pra balada -, e olha com descaso pro celular, deixando-o em cima do móvel, exatamente onde ele estava e de onde eu havia o tirado. "E se acontecer alguma coisa? Você vai ficar incomunicável." Pergunto, e ela suspira. "Acontecer o quê? Cala a boca, não vai acontecer nada, não." Não sei de onde vinha tanta certeza, mas não me sentia bem com aquela história. Procurei algum argumento. "E o chiclete? Não vai levar chiclete?" Quem vive sem chiclete? Ela abriu o guarda-roupa, tirou dois de dentro da caixinha e me entregou um. Falou um 'pronto' apressado e começou andar até a porta de casa. E nós sem bolsa. "Onde ponho a chave?" Insisto. Ela dá uma bufada e diz pra eu largar junto com o celular. Pronto, se houvesse uma catástrofe, estaríamos perdidas. Ela não liga. Meus pensamentos nefastos e tempestuosos pra ela são preocupações de criança. Ela me apressa, diz que a fila vai estar enorme e liga um sertanejo do rádio do carro. Eu detesto sertanejo. Ela troca de estação várias vezes, indecisa entre uma música batida da Rihanna e a Rádio Sertão - só pode -. Decide por ficar meio a meio. Esquece, perdoa, supera, releva. Acho que eu queria ser assim, tão leve, tão despreocupada, desimpedida...

Não queria não.

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Entretidos.