Só.

Seus olhos procuravam por ele no meio de tantas outras pessoas, uma brisa incômoda atrapalhava sua visão, jogando seus cabelos cor de ébano por todo o rosto enquanto andava. Já não tinha certeza se devia estar ali, e ver aquelas pessoas felizes, despreocupadas e ocupadas perto da grama tão verde e bem cuidada fazia com que ela se arrependesse de ter vindo. Girou em seus calcanhares e fez como se fosse sair, procurando o lugar mais longe possível. Ele estava atrás dela, segurou-a pelo braço e perguntou com aquele sorriso tranquilo onde ela iria.
- Achei que você não vinha.
Ele inclinou a cabeça pra trás e deu uma risada, sacudindo a cabeça devagar.
- Claro que vinha, achei que ia te ver mais perto do lago, tenho te procurado faz uns vinte minutos.
- Ah.
- Vem, o combinado não foi esse.
Maldito combinado, maldita vodka, maldito horário. Ele a havia convencido em situação por demasia desfavorável. Suspirou baixinho e deixou ser levada até onde quer que fosse.
Passaram para o lado oposto do condomínio, subiram duas levas de escada e chegaram em uma torrezinha. Quando estava perdendo a paciência, ele começou a explicar:
- Eu costumava vir aqui com a minha mãe uns anos atrás, quando eu era moleque. Ela falava que se eu ficasse bem quieto deitado na parte mais alta, olhando as estrelas, eu teria boas ideias. E pra falar a verdade, todas as grandes decisões da minha vida foram tomadas aqui.
Olhou pro rapaz com olhos interessados, e caminhou até a rampa que levava ao local mencionado.
- É bem bonito.
- Sei que sou.
Ignorou-o com desdém e deitou no chão conforme fora dito. Podia começar a fazer ligações de constelações, e sentiu uma pressão forte no peito. Devia ser difícil pra ele voltar até lá com tantas lembranças da mãe. Não conseguiu pensar em nada confortante pra dizer, e enquanto isso ele deitou do seu lado e voltou a falar.
- Essa é a minha favorita. Tem um nome engraçado. Apus. Mas em português é Ave do Paraíso.
Instaurou-se o silêncio, mas não era desconfortável. Aquele silêncio gostoso de duas pessoas que não precisam buscar desesperadamente por palavras só pra preencher o vazio.
- Então, te trouxe aqui porque não vou poder mais vir, e só consegui pensar em você pra ficar com esse lugar. Sei que é meio bobo, mas acho que fará bom uso.
- Por que não vai poder vir?
Seus olhos se enalteceram pelo interesse da mulher e respondeu com uma pitada de indiferença que simplesmente não poderia.
Levantaram-se, despediram-se, seguiram suas vidas. De vez em quando ela voltava pra lá, inquieta com o que o rapaz dissera, e um dia naquele mesmo lugar decidiu que iria procurar saber. Mas o telefone não atendia, as mensagens não eram respondidas. Ele fora embora, mas tinha deixado a lembrança, e aquele lugar. E era bonito, muito bonito.

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Entretidos.