Você

Senti saudades de você. Rápida, passageira, mas ainda assim saudade. Li algumas cartas, alguns poemas, uns causos meio bobos, você costumava rir de mim quando eu ligava demais pras coisas. Jogava uma cantada idiota que eu achava só um pouco de graça, e perguntava o que eu tinha feito errado no dia, se algum coleguinha tinha faltado com o respeito comigo ou se eu estava caindo na tentação. Eu pensava em umas coisas estranhas; como o formato do seu queixo, a maneira que o seu cabelo caía sobre os olhos e você tinha que sacudir igual um cachorro pra poder enxergar, o jeito que você devia falar as coisas, e o que você ia fazer quando parássemos de conversar.
Tinha algo diferente, a maneira que você interpretava e explicitava fatos, seu posicionamento e a demonstração da sua opinião. Eu me atraio por coisas diferentes que as pessoas normais, eu valorizo a cabeça mais do que quase qualquer outro aspecto, e você tinha "a" mente, e pior: me entendia. Quantas pessoas eu conheço que me compreendem? Construí sobre você a imagem do ideal, as características que eu devia procurar em todo mundo pra começo de conversa.
E o tempo foi passando, sem nunca ficarmos parados na rotina. Você me surpreendendo, eu achando bom, e nós dois levamos as coisas. Contanto, sou tão instável... Eu mudo tanto de ideia, de conceito, de decisão, e você mesmo lidando com isso, ficou pra trás. No final das contas, eu deixo todo mundo pra trás, e fico sozinha. Eu não consigo conviver com ninguém, nem com você. Não fui feita pra isso, você sabe. Você me conhece(cia?).
E agora, depois desses anos, eu descobri que você não existe. E além de não existir, foi a minha materialização da pessoa humana, e meu melhor amigo até então. Eu já era velha quando te inventei, e mesmo que não doa, ainda arde. Sabe ardência? Então. Eu sinto arder. Eu sinto coçar no fundo das minhas confusões, como aquela coisa que pulsa no fundo da gaveta, e quando procuramos alguma coisa perdida, achamos ela. A gente nunca supera essas coisas completamente. Mas sabe qual é o problema? Você sou eu. E isso me mata.

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Entretidos.