Estrategicamente (in)dispostos entre o bem e o mal

Desde que me entendo por gente verifico a compulsão das pessoas em se classificarem e em incluir umas as outras nesse critério imaginário. "Susaninha, filha de Luíza, é endiabrada! Não para um minuto sentada e dá o maior trabalhão!" Pronto. Susaninha, coitada, vai crescer com a reputação de menina levada e desobediente, e essa imagem vai crescendo com ela. Os anos vão se passando e a própria pessoa que foi taxada vai acabar entendendo que lá no fundo, ela é uma pessoa teimosa e desobediente. E claro que isso vai se estender para a fase adulta.
Não para por aí. Decidimos que somos um determinado tipo de pessoa, e nossas escolhas são inteiramente baseadas com o que pensamos de nós mesmos misturado com a imagem que as pessoas têm de nós. "Será que um casaco rosa com capuz me define como pessoa? Se eu usar All Star surrado as pessoas vão me reconhecer como integrante do mesmo grupo social que eu me encontro agora?"
Na minha experiência pessoal, oscilei entre extremos. Antes queria ser a pessoa mais inteligente do mundo - ainda quero - e provar isso para os outros, depois decidi que eu era diferente de todos e por isso minhas escolhas tinham que ser diferentes. Quando a gente se entende por algo "e pronto", a situação se complica. Nossas roupas, corte de cabelo, amigos, ambientes, lugares prediletos, comida favorita, acessórios, visão de mundo, tudo é definido mais do que pelo que acreditamos ser/pensar/sentir do que pelo que realmente gostamos.
Quando nos delimitamos como pessoas - acredite se quiser, mas tem gente que dá um jeito de se rotular até como gente não rotulável  ou como pessoa que não se descreve - acabamos naquela ladainha bem conhecida, sobre ser uma pessoa boa ou uma pessoa má, e concluir onde nos encaixamos.
Quem não liga para essas coisas vive tranquilo, mas quem se importa com a opinião dos outros adentra em um paradigma muito complexo. Essa necessidade de se definir nos leva a loucura, acabamos fazendo coisas que jamais faríamos se ninguém estivesse nos julgando, para finalmente perceber que essa ideia de ser bom ou mau é raríssima... Com alguns poucos exemplos de pessoas que são só boas e pessoas que são só más, acabamos nos esquecendo que na verdade somos apenas humanos. Criaturas incessantes na busca de autoaprovação.
Não tenho mais saco para só escolher o que "combina" comigo. Se eu quero alguma coisa, não me preocupo mais com um motivo sombrio e uma explicação perfeitamente racional. Eu só quero mesmo. Não interessa se as músicas que eu escuto são incompatíveis, ou se meu jeito de pensar não admite. Na minha compulsão por ser uma pessoa ruim, tentei construir uma imagem não afetável de frieza e sarcasmo, e embora eu ache o máximo uma pessoa que é badass por si só, cansa demais ficar fingindo pra você mesmo que você é só "aquilo". Aquele conceitinho que criamos para cada um de nós. Um conceito ínfimo demais para toda a nossa extensão.


P.s.: peço desculpas ao menino que eu destruí o bichinho de farinha, vitima inocente de uma das minhas tentativas de ser muito malvada.
P.s.¹: meus cumprimentos a quem é bizarro no exterior e no exterior também.

Um comentário:

  1. Encontrar uma identidade para si não é um trabalho que possua parâmetros definidos. Capuz rosa, All Star surrado... cada uma dessas características devem ser tratadas individualmente, representam algo individual. Mas quem foi que estabeleceu que não se pode usar os dois ao mesmo tempo? A nossa identidade é aquilo que está dentro da gente, cada preferência, cada ideal, a nossa VONTADE. Nós somos capazes de gerar infinitas combinações entre tudo aquilo que nos compõe e fazer disso a nossa identidade.
    A linha de raciocínio que se segue aqui é: identidade não precisa ser fixa, apenas a essência dela precisa. Essência esta que se dá pelo que você acredita. Eu acredito que é possível ser bom e mau ao mesmo tempo, basta dosar um ou outro de acordo com o que você quer ser no momento. Eu acredito também em seres humanos que são camaleões e essa é a essência da minha identidade: gosto de ser várias pessoas ao mesmo tempo. Eu trato a sorte como uma metáfora, pois não acredito que sorte exista, como há quem diga que Deus é quem não existe. Essa é a minha essência, a base da minha identidade.
    Não há problemas em colocar um rock para tocar e depois cantar junto com a Britney. Basta aceitar que não somos um, somos vários, somos quantos o nosso interior conseguir suportar. E cada um dos nossos "eus" formam a nossa verdadeira identidade, identidade esta que podemos mudar quando bem entendermos, desde que condizente com a tal essência. Afinal, pessoas mudam.

    "You don't believe in God,
    I don't believe in luck,
    They don't believe in us,
    But I believe we're the enemy.

    DESTROYA!"

    (Mariana Gabriela)

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Entretidos.