Passagem

O estilo da casa não coincidia com o seu próprio. Estava sentada naquela poltrona antiga, conseguindo sentir através do tecido da calça de montaria uma pequena fenda que havia no sofá, provavelmente advindas da hiperatividade dos sobrinhos, que estavam sempre correndo por aí e destruindo tudo em seu caminho, como aqueles filhotes recém-nascidos de cachorro, destrambelhados e sem direção.
Fazia noites em que não conseguia descansar direito. Sempre escutando histórias pouco razoáveis sobre a insônia e o estresse, mas fingia que não era com ela. Já havia tentado de tudo: chá, suco de maracujá, pílulas, corridas. E de todo modo, já era a quarta noite acordada.
Havia deixado a janela da sala aberta, apenas uma fresta suficiente para arejar o recinto. Naquela noite, a natureza parecia enfurecida. Podia-se ouvir claramente o zumbido da corrente de ar, machucando a cortina bege da janela, aquela cortina que havia ganhado de sua mãe, e pendurado a contragosto. Era insossa, sem charme algum, sem vida. La petit mort da sala de estar. Porém, literalmente.
O barulho do vento não a incomodava, mas a deixava insegura. Como se este pudesse invadir seu espaço, domá-la. Olhava com o canto dos olhos para os movimentos furtivos do tecido, porém, sem tomar decisão alguma. Do outro lado, aquele tique-taque irritante do relógio. Um relógio de corda com os números ao contrário, mas que mostrava a hora certa. Girava ao reverso, assim como a vida dela.
Sentia-se exausta. Fatigada. Dormente. Como se não existisse nenhum propósito. Já o havia procurado, estudado, divagado. Insistia consigo mesma que talvez isso não fosse necessário. Que propósitos seriam uma forma de superstição, assim como clarividência e o destino. Em seu íntimo, considerava tudo uma grande coincidência.
Dezenas de milhares de pequenos fatos alterando a rota da existência. Caminhos encruzilhados por uma parcela de questões. De tal forma eram os relacionamentos, as atitudes. Lances de sorte definiriam e definem a rota do universo. Os rostos que perpassavam, as cenas visualizadas, as situações que se deparava. Nada disso possuía um motivo. Mas mesmo assim, ela tinha fé. Fé, que mesmo com o desconhecimento, poderia haver descobertas fulminantes. Prazer nas pequenas e grandes coisas. Esperança. Vida.
Levantou-se do sofá em um ímpeto, determinada a sair de lá. Queria ficar sozinha, mas em contato com algo maior. Esgueirou-se pelo corredor, alcançou a porta e viu-se livre. Sentiu o vento que incomodava a cortina, chocando-se contra ela, mostrando mais uma vez que se tratava de uma batalha de poder. Não estava agasalhada, contudo, não importava. Precisava sair de lá. Precisava muito.
A rua não estava bem iluminada. Podia ver a sombra das árvores balançando em encontro ao chão. Sentia  incerteza. Continuou andando. No final do quarteirão, havia um parquinho para crianças e alguns equipamentos para exercícios, mais utilizados pelos idosos que moravam no bairro. Pensou em sentar em algum monumento de madeira e encarar a imensidão do céu.
Desde pequena, conheceu milhares de pessoas fascinadas com a lua, mas seus olhos sempre foram obcecados pelas estrelas. Andou devagar até uma escadinha com uma ponte e escorregador, subiu os degraus e atirou-se na madeira turva. Uma grande parte do céu estava escondida atrás de construções de pedra, mas ainda conseguia ver um mar de brilhos, focos de luz. Astros que não existiam há muito tempo, mas ainda assim podiam ser observados. Não soube quanto tempo ficou ali, parada, somente a observar, ouvindo o barulho da noite. Mas finalmente adormeceu.

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